quarta-feira, 28 de junho de 2017

APRESENTAÇÃO DA OBRA:
CONTOS DE CEIRA AO LUAR
CEIRARTE/2017
A obra Contos de Ceira ao Luar é uma coletânea de dezoito contos, escrita por duas autoras, que percorre uma longa trajetória no tempo, dando-nos a conhecer a vida quotidiana e a condição humana nos séculos XIX, XX e princípios do XXI. 
Costumes de Ceira, festas de cariz religioso e pagão, tradições, histórias "do arco da velha", lugares distantes, estranhos e lúgubres, personagens castiças, existentes em Ceira e em Coimbra, reaparecem-nos engrandecidas, como se pedissem para as recordarmos hoje, no espaço da ficção, da memória, da fantasia e do sonho.  
Este espaço e este tempo antigo, envolvente, rural, duro e pobre, mas talvez mais alegre e saudável do que o atual, entrecruza-se com a atualidade em que vivemos, colocando novas lentes, mas analisando e repetindo os mesmos temas da esperança, da fantasia, do onírico, do absurdo, da vida e do amor, da velhice, do tempo, da doença e da morte. 
O livro abre com o conto intitulado “Estação Coimbra B”. E aqui começa a viagem no tempo e no espaço aberto à fantasia e à memória. Nesta história, um viajante chega à cidade e, antes de descobrir a mulher da sua vida, começa por recordar a infância, passada em Ceira, na companhia dos primos, tios e tias de muita idade e dos avós. As suas tias, que eram lavadeiras, fazem parte do elenco de personagens aqui evocadas, que desfilam à medida que as narradoras recordam costumes e tradições antigas, tão inesquecíveis como a roupa lavada no rio Ceira e transportada para Coimbra na barca serrana de Joaquim Rodrigues, conhecido pelo “barqueiro divertido”, ou então nos carros de bois, meios de transporte utilizados na época com esta finalidade.
Assim, podemos ler, nas páginas 22 e 23, a descrição do narrador masculino sobre a sua infância:
«Participávamos nas vindimas, a comer e a pisar uvas, dentro de um grande tanque, na adega do avô Manel e do tio Toninho, descamisávamos e escarolávamos as espigas de milho na eira, ajudando a avó Palmira e as tias velhas, que estavam quase sempre a cantarolar, com uma voz fina e chata, implicando connosco e nós com elas.
Depois do almoço dormíamos a sesta, porque se não dormíssemos eram chamados o homem do saco ou o farrapeiro, para nos levarem com eles, tão assustadores, deviam ser velhos, não sabíamos bem para onde iríamos, palavras que nos eram ditas também quando nós nos portávamos mal.
Alguns anos depois, as diversões mudaram de sítio. Faziamse matinés na discoteca o Lagar, na Boiça, nas festas de garagens, só para alguns amigos, dançávamos rock e slow e curtíamos o momento, sem preocupações, ao som da música dos anos oitenta e noventa, na minha opinião, a melhor de sempre…
Sobre as lavadeiras, recordome de ouvir a minha avó contar que entregavam a roupa lavada, às freguesas, todas as segundasfeiras, regressando a casa com as peças sujas, após as senhoras de Coimbra darem a roupa ao rol, assegurandose que nada desapareceria. Se faltassem peças, as lavadeiras tinham de indemnizar as freguesas, que eram intolerantes.
As pobres mulheres escolhiam uma pedra, nas margens do rio Ceira, regra geral nos finais do inverno, depois das grandes enchentes, que arrastavam consigo pedras de géneros e tamanhos variados, daí poderem selecionálas à vontade e gosto de cada uma, tornandose a partir desse momento propriedade exclusivamente sua. Ficavam identificadas as pedras da ti Rita, da ti Angelina, da ti Lurdes, e de outras lavadeiras do rio Ceira.»
No conto seguinte, "O Poeta Oculto", as autoras apresentam-nos uma figura conhecida como Manuel Simões “Lata”, o poeta popular de Ceira que escrevia, tanto prosa como verso, para o jornal Diário de Coimbra. O conto é narrado pela sua bisneta, a narradora textual que relembra ao leitor a forma como o poeta vivia, a sua profissão de alfaiate e membro da Junta de Freguesia de Ceira, a educação esmerada que dava aos seus oito filhos, como em sua casa de alfaiate eram convidados para banquetes, jantares e tertúlias os padres, com quem o poeta gostava de discutir assuntos de religião e política, entre muitas outras figuras residentes na aldeia, como o senhor juiz e o regedor. 
Deste modo, podemos ler, nas páginas 43 e 44, o relato fidedigno da narradora textual, que relembra situações vividas em casa do seu bisavô, Manuel Simões Lata:
«Discutiase religião, política e coisas do arco da velha. O padre Antunes e o seu vizinho, o padre Ismael de Almeida Chuvas, o professor Melo, o juiz, e outras personalidades da vida social da região, reuniamse para conversas importantes ou banais, acompanhadas do vinho que pinchava nos copos. Teresa não se cansava de o oferecer, deixando os copos cheios, por vezes a espirrar sobre a toalha, devido aos gracejos dos padres, calaceiros por mulheres, não tiravam os olhos dela.
À medida que bebiam, desvendavam segredos de confessionário. Os doutores das quintas ficavam a saber quem roubava feijões, milho, e outros haveres, quem comia a broa do senhor doutor Virgílio, os homens ficavam a saber quem eram as mulheres desonestas. Os padres ou abades comentavam quem tinha o nome em branco no livro da desobriga. Quanto à política, quem fazia parte da lista branca, quem eram os tratantes da negra, os maiores bêbedos, os piores ladrões, os homens que maltratavam mulheres e corriam os filhos à calhoada, em que lugar da paroquia havia mais fome e carência de bens materiais, quais eram as crianças desobedientes e difíceis de educar, se nos últimos anos havia aumentado o número de deficientes. Nestes casos, o padre e o presidente da Junta atuavam, fazendo com que os filhos lhes fossem retirados e colocados no Ninho ou na Tutoria, onde aprenderiam uma profissão, saindo depois de atingirem a maioridade.
O padre comunicava ao bispo estas e outras ocorrências, tendo ainda de informar por escrito o número de nascimentos e batismos, os nados mortos, óbitos, casamentos católicos, mancebias. Cabia ao padre, pastor da igreja, zelar pelas suas ovelhas. Era quem atestava o bom ou mau comportamento, cívico e moral, dos paroquianos.
Priores, curas ou abades da época deviam mostrar capacidades para liderar o melhor possível a paróquia, tendo obrigação de tentar corrigir ou minorar quezílias entre famílias e vizinhos.»
Noutro conto desta obra, intitulado “Alma de Pássaro”, somos transportados de novo para os nossos dias, evidenciando problemas que nos anos 20 e 40 não existiam, tal como o drama das smartshops e das drogas psicotrópicas, fabricadas em laboratórios, vendidas nas ruas e pela Internet. 
Nesta coletânea, oscilam, portanto, os problemas do nosso quotidiano agitado do século XXI, em contraste com a lentidão e a pacatez da existência, nos finais do século XIX e primeira metade do século XX.
Sucedem-se, uns atrás de outros, em alternância, episódios cómicos, trágicos e misteriosos, como as noites de um barqueiro embriagado na taberna de António Antunes, no largo do Santo Cristo; o jornalista preocupado com a violência do mundo atual; os serões de antigamente; a bailarina a quem oferecem um chá e fica alucinada; a casa queimada do Padre Antunes e os segredos que ela escondia na terra; a estalagem da Catraia e as festas que os arraianos faziam, quando aí chegavam, com os seus cavalos e mercadorias, trazendo de Espanha, para vender às senhoras, a peça da perdição, que foi proibida pela Igreja durante alguns anos; a casa do Ramal onde nós encontramos atualmente o café Katekero; a Casa da Lameira e o sonho da bondosa D. Virgínia; o estudante de Coimbra, recordado no conto “Silêncio Perpétuo”; o professor de hoje e o professor antigo, que ralhava e batia, dava com a cana nas orelhas das alunas até lhes deixar tortumelos; a mulher aflita que procura a curandeira para tentar abortar, porque já não quer mais filhos; as diferenças entre o curandeiro moderno e a curandeira antiga.
Assim, podemos ler no conto intitulado A Elisa do Augusto Rato:
«Acerca de setenta anos, morava na rua da Igreja, em Ceira, uma mulher de nome Elisa, mais conhecida por Elisa do Augusto Rato.
A casa onde morava era soturna e fria, não só pela sua estrutura, como também pela aparição de uma figueira brava, que nascera ao fundo das escadas, sombreando toda a fachada principal. Diziase que fora enterrado um tesouro no sopé das suas raízes, tendo a árvore nascido para dar conhecimento aos ceirenses da veracidade daquele e da falta de coragem da geração que, não tendo sido capaz de o desenterrar ao bater da meianoite, ouviu durante muitos anos ruídos estranhos dos espíritos maquiavélicos que por ali rondavam.
Esta figueira era ponto estratégico para as aves noturnas. Dela pendiam os morcegos que, na noite escura, vagueavam dos seus galhos para os beirais dos telhados e destes agarravamse aos xailes de carapinha das mulheres e à borla da carapuça dos homens, quando por ali passavam, depois das trindades. A coruja e o mocho também nela se acomodavam, causando o pânico na vizinhança, que dizia tratarse de aves agourentas, prenúncio de chuva ou morte. Porém, no verão, dava uns figos doces como mel, que só os melros e as crianças comiam. Os adultos temiam o maligno do passado. Os seus ramos davam uma sombra maravilhosa, a ponto de as mulheres, à hora da sesta, correrem ao despique para encontrar lugar na escada, onde se sentavam de conluio, de cabeça no regaço umas das outras a catar lêndeas e piolhos.
A tia Elisa era uma mulher enérgica, cheia de expediente e coragem, tida como sendo, na época, a mulher de maior préstimo em Ceira e arrabaldes; capaz de tratar das doenças do físico e do espírito. Era ela quem ajudava as pessoas a virem ao mundo e lhes fechava os olhos, amortalhandoas e pondoas no esquife para a viagem final. Era escasso o dia que passasse sem ser chamada para retirar um grão de cereal do nariz ou do ouvido a uma criança, um anzol a um mancebo, um estadulho da sola do pé de um cavador, e outros corpos estranhos, alojados em qualquer região do corpo humano.»
Para resumir, estes contos não são mais do que memórias e ocorrências de Ceira, escritas em noites de luz e inspiração, com a finalidade de dar a conhecer o passado a adultos e jovens. É um livro dedicado à juventude ceirense de hoje, a todos quantos amam a sua terra, os valores regionais, a etnografia e a história.





Sem comentários:

Enviar um comentário