CONTOS DE CEIRA AO LUAR

SAUDADES DA LIBERDADE EM TEMPO DE DITADURA

Há vinte e alguns anos, quando eu e o meu marido começámos a dar aulas, com vinte e dois anos apenas, sempre achámos que tudo isto, a falta de valores, a indisciplina, a arrogância de alguns alunos, iriam refletir‑se mais tarde, claramente, na nossa sociedade. Aliás, ficávamos confusos, indignados e obstinados até nos deitarmos e adormecermos nos braços um do outro, porque nos parecia que não havia muito a fazer pelos que andavam distraídos da vida, uma vez que os pais não se afligiam muito. 
De facto, os professores preocupavam‑se, mais do que alguns pais, avós, encarregados de educação, mas a sociedade, no geral, parecia‑nos desatenta e indiferente ao que de facto importa: a formação cultural, cívica, ética, das gerações vindouras, a valorização do papel do professor e o respeito pelo ser humano, independentemente da idade: desde o mais novo ao mais idoso e entrevado. 
Eu e o meu marido apoiamo-nos mutuamente. É o que me vale. Ambos concordamos que, em certas turmas, se gastávamos demasiado tempo a manter a disciplina na aula, nada mudou até ao momento presente, continuamos a gastá‑lo, a consumir minutos a repreender alunos em vez de ensinarmos a matéria que preparámos. Quando conseguimos que estejam em sossego, a aula corre bem. Por vezes, parece que tudo corre lindamente, mas no meio do silêncio um aluno diz um palavrão, por exemplo, “que merda de aula…” E estraga‑nos tudo! E depois toca um telemóvel, ouve‑se uma gargalhada, faz‑se uma careta, um deles insurge‑se contra o colega do lado, levanta‑se, vai ter com ele e parte‑lhe o nariz, entre mil e uma ocorrências, interrupções, cenas de violência descontroladas, que parecem incontornáveis, mas não são, resta que alguém se preocupe seriamente com o futuro deste país.
Porque obviamente, não existem professores de olhos fechados, nem ouvidos tapados, ou que não tenham sentimentos. Na sala de aula, abrimos bem os olhos, aliás os nossos rostos e a nossas vozes ganham uma certa expressividade, com o voltear do tempo, que não engana quanto à profissão. Na sala de aula, o nosso corpo está alerta. Olhos e ouvidos, principalmente. Só estamos é de mãos atadas. E cada vez mais… Merecíamos alguma consideração. 
Como se fossemos um povo unido e consciente, sabemos que vamos pagar bem cara a falta de autoridade, de respeito e de valores que se vem manifestando nas escolas, em casa, na sociedade. Todos nós o sabemos, exceto aqueles que não querem saber, porque não querem saber de nada e só lhes interessa poder e dinheiro. Esses habituaram‑se ou acomodaram‑se e, se bem calha, ainda chamam inadaptados aos outros. Preferem o silêncio da indiferença ou a demagogia do poder. A autoridade, essa autoridade que roubaram aos professores, o respeito e até a dignidade que nos arrancaram, nunca mais nos foram devolvidos. Mas a culpa não foi nossa! Nós temos a certeza de que fizemos o melhor, o que estava ao nosso alcance, agora que as coisas pioraram tanto. E é por isso que realmente tenho saudades do passado… Eu mais do que o meu marido. O certo é que antigamente, quando começámos a trabalhar, tudo tinha força, vigor, entusiasmo, boa‑disposição! Organizávamos boleias, viajávamos de madrugada, e já saíamos felizes de casa, nem que fossem seis horas da manhã. Mas tínhamos vinte anos, e não quarenta e muitos, o que faz toda a diferença, porque envelhecemos e já não existem reduções nos horários. Tenho saudades daquele tempo em que atas de Conselhos de Turma eram escritas à mão e não existiam máquinas: nem telemóveis nem computadores. Ele, que já não faz nada sem o computador, acha que eu exagero. 
O certo é que eu era mais nova, e a vida mais leve. Havia sempre alguém que preparava e levava um lanchinho, uns chocolates pelo Natal e pela Páscoa, uns sumos requintados ali da zona da Anadia, um pão com chouriço, uns bolos caseiros... Recordações muito boas dos colegas de Águeda e de outras escolas também... Mas não me esqueço que, sendo eu a mais nova, era também Diretora de Turma, e bastante perfecionista. Os colegas, mais velhos e sábios, é que não iam na cantiga. Enfim, ninguém os derrotava, muito menos eu, que chegava de novo e era uma lufada de ar fresco! 
O problema eram as atas e quem as fazia. Era mesmo um grande sarilho! Vê lá quem é o secretário, senão tenho de fazer eu a ata! Ninguém as queria fazer! Os secretários começaram a ser indigitados pelo órgão de gestão, graças a Deus. Uma vez calhou‑me o meu marido como secretário. Eu pensei que estava arrumada, porque não conhecia o Zé Carlos como colega, mas logo me pareceu um baldas, só pela maneira como se vestia e por ser tão novo. Afinal saiu‑me o melhor secretário do mundo. Como o aspeto exterior nos engana tanto! Mas o melhor era quando nos enganávamos nas atas e escrevíamos “digo”, depois uma vírgula, e continuávamos a redigir o texto. “A colega não se importa de fazer outra ata?” Eu era a Diretora de Turma, mas os meus colegas, todos mais velhos, unidos e determinados, recusavam-se a passar a ata de novo e eu lá me conformava com o “digo”.
Éramos tão felizes nessa altura... De manhã, as árvores eram verdes ou vermelhas e estavam vivas, acesas e intensas, cheias de frescura e velocidade quando passávamos por elas, mostrando grande beleza. À noite, no regresso a casa, pouco tinham mudado. No dia seguinte novamente a viagem para a escola longínqua. À sexta‑feira, sentia‑se algum cansaço, mas pouco. Ainda dava para tomar um copo com os amigos à noite. O fim de semana chegava para tudo, sem computadores não havia que dar respostas, corrigiam‑se as fichas, faziam‑se materiais, e ainda se limpava e arrumava a casa… Agora quem manda é a máquina. Estamos dependentes do computador e por isso temo‑lo sempre ligado, à espera dos e‑mails da escola...


Anabela França Pais, "Saudades da liberdade em tempos de ditadura", in Contos de Ceira ao Luar. 

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