APRESENTAÇÃO DA OBRA:
CONTOS DE CEIRA AO LUAR
CEIRARTE/2017
A obra Contos de Ceira ao Luar é uma
coletânea de dezoito contos, escrita por duas autoras, que percorre uma longa trajetória
no tempo, dando-nos a conhecer a vida quotidiana e a condição humana nos séculos
XIX, XX e princípios do XXI.
Costumes de Ceira, festas de cariz religioso e pagão,
tradições, histórias "do arco da velha", lugares distantes, estranhos
e lúgubres, personagens castiças, existentes em Ceira e em Coimbra,
reaparecem-nos engrandecidas, como se pedissem para as recordarmos hoje, no
espaço da ficção, da memória, da fantasia e do sonho.
Este espaço e este tempo antigo, envolvente, rural,
duro e pobre, mas talvez mais alegre e saudável do que o atual, entrecruza-se
com a atualidade em que vivemos, colocando novas lentes, mas analisando e
repetindo os mesmos temas da esperança, da fantasia, do onírico, do absurdo, da
vida e do amor, da velhice, do tempo, da doença e da morte.
O livro abre com o conto intitulado “Estação Coimbra
B”. E aqui começa a viagem no tempo e no espaço aberto à fantasia e à memória. Nesta história, um viajante chega
à cidade e, antes de descobrir a mulher da sua vida, começa por recordar a
infância, passada em Ceira, na companhia dos primos, tios e tias de muita idade
e dos avós. As suas tias, que eram lavadeiras, fazem parte do elenco de
personagens aqui evocadas, que desfilam à medida que as narradoras recordam
costumes e tradições antigas, tão inesquecíveis como a roupa lavada no rio
Ceira e transportada para Coimbra na barca serrana de Joaquim Rodrigues,
conhecido pelo “barqueiro divertido”, ou então nos carros de bois, meios de
transporte utilizados na época com esta finalidade.
Assim, podemos ler, nas páginas 22
e 23, a descrição do narrador masculino sobre a sua infância:
«Participávamos nas vindimas, a
comer e a pisar uvas, dentro de um grande tanque, na adega do avô Manel e do
tio Toninho, descamisávamos e escarolávamos as espigas de milho na eira,
ajudando a avó Palmira e as tias velhas, que estavam quase sempre a cantarolar,
com uma voz fina e chata, implicando connosco e nós com elas.
Depois do almoço dormíamos a
sesta, porque se não dormíssemos eram chamados o homem do saco ou o farrapeiro,
para nos levarem com eles, tão assustadores, deviam ser velhos, não sabíamos bem
para onde iríamos, palavras que nos eram ditas também quando nós nos portávamos
mal.
Alguns anos depois, as diversões
mudaram de sítio. Faziam‑se matinés na discoteca o Lagar,
na Boiça, nas festas de garagens, só para alguns amigos, dançávamos rock e slow
e curtíamos o momento, sem preocupações, ao som da música dos anos oitenta e
noventa, na minha opinião, a melhor de sempre…
Sobre as lavadeiras, recordo‑me de ouvir a minha avó contar que entregavam a roupa lavada, às
freguesas, todas as segundas‑feiras, regressando a casa com as
peças sujas, após as senhoras de Coimbra darem a roupa ao rol, assegurando‑se que nada desapareceria. Se faltassem peças, as lavadeiras tinham de
indemnizar as freguesas, que eram intolerantes.
As pobres mulheres escolhiam uma
pedra, nas margens do rio Ceira, regra geral nos finais do inverno, depois das
grandes enchentes, que arrastavam consigo pedras de géneros e tamanhos variados,
daí poderem selecioná‑las à vontade e gosto de cada uma,
tornando‑se a partir desse momento propriedade exclusivamente sua. Ficavam
identificadas as pedras da ti Rita, da ti Angelina, da ti Lurdes, e de outras
lavadeiras do rio Ceira.»
No conto seguinte, "O Poeta
Oculto", as autoras apresentam-nos uma figura conhecida como Manuel Simões
“Lata”, o poeta popular de Ceira que escrevia, tanto prosa como verso, para o
jornal Diário de Coimbra. O
conto é narrado pela sua bisneta, a narradora textual que relembra ao leitor a
forma como o poeta vivia, a sua profissão de alfaiate e membro da Junta de
Freguesia de Ceira, a educação esmerada que dava aos seus oito filhos, como em
sua casa de alfaiate eram convidados para banquetes, jantares e tertúlias os
padres, com quem o poeta gostava de discutir assuntos de religião e política,
entre muitas outras figuras residentes na aldeia, como o senhor juiz e o
regedor.
Deste modo, podemos ler, nas
páginas 43 e 44, o relato fidedigno da narradora textual, que relembra
situações vividas em casa do seu bisavô, Manuel Simões Lata:
«Discutia‑se religião, política e coisas do arco da velha. O padre Antunes e o seu
vizinho, o padre Ismael de Almeida Chuvas, o professor Melo, o juiz, e outras
personalidades da vida social da região, reuniam‑se para conversas importantes ou
banais, acompanhadas do vinho que pinchava nos copos. Teresa não se cansava de
o oferecer, deixando os copos cheios, por vezes a espirrar sobre a toalha,
devido aos gracejos dos padres, calaceiros por mulheres, não tiravam os olhos
dela.
À medida que bebiam, desvendavam
segredos de confessionário. Os doutores das quintas ficavam a saber quem
roubava feijões, milho, e outros haveres, quem comia a broa do senhor doutor
Virgílio, os homens ficavam a saber quem eram as mulheres desonestas. Os padres
ou abades comentavam quem tinha o nome em branco no livro da desobriga. Quanto
à política, quem fazia parte da lista branca, quem eram os tratantes da negra,
os maiores bêbedos, os piores ladrões, os homens que maltratavam mulheres e
corriam os filhos à calhoada, em que lugar da paroquia havia mais fome e
carência de bens materiais, quais eram as crianças desobedientes e difíceis de
educar, se nos últimos anos havia aumentado o número de deficientes. Nestes
casos, o padre e o presidente da Junta atuavam, fazendo com que os filhos lhes
fossem retirados e colocados no Ninho ou na Tutoria, onde aprenderiam uma
profissão, saindo depois de atingirem a maioridade.
O padre comunicava ao bispo estas
e outras ocorrências, tendo ainda de informar por escrito o número de
nascimentos e batismos, os nados mortos, óbitos, casamentos católicos,
mancebias. Cabia ao padre, pastor da igreja, zelar pelas suas ovelhas. Era quem
atestava o bom ou mau comportamento, cívico e moral, dos paroquianos.
Priores, curas ou abades da época
deviam mostrar capacidades para liderar o melhor possível a paróquia, tendo
obrigação de tentar corrigir ou minorar quezílias entre famílias e vizinhos.»
Noutro conto desta obra, intitulado
“Alma de Pássaro”, somos transportados de novo para os nossos dias,
evidenciando problemas que nos anos 20 e 40 não existiam, tal como o drama das smartshops e das drogas psicotrópicas, fabricadas
em laboratórios, vendidas nas ruas e pela Internet.
Nesta coletânea, oscilam, portanto,
os problemas do nosso quotidiano agitado do século XXI, em contraste com a
lentidão e a pacatez da existência, nos finais do século XIX e primeira metade do
século XX.
Sucedem-se, uns atrás de outros,
em alternância, episódios cómicos, trágicos e misteriosos, como as noites de um
barqueiro embriagado na taberna de António Antunes, no largo do Santo Cristo; o
jornalista preocupado com a violência do mundo atual; os serões de antigamente;
a bailarina a quem oferecem um chá e fica alucinada; a casa queimada do Padre
Antunes e os segredos que ela escondia na terra; a estalagem da Catraia e as
festas que os arraianos faziam, quando aí chegavam, com os seus cavalos e
mercadorias, trazendo de Espanha, para vender às senhoras, a peça da perdição, que
foi proibida pela Igreja durante alguns anos; a casa do Ramal onde nós
encontramos atualmente o café Katekero; a Casa da Lameira e o sonho da bondosa
D. Virgínia; o estudante de Coimbra, recordado no conto “Silêncio Perpétuo”;
o professor de hoje e o professor antigo, que ralhava e batia, dava com a cana
nas orelhas das alunas até lhes deixar tortumelos; a mulher aflita que procura
a curandeira para tentar abortar, porque já não quer mais filhos; as diferenças
entre o curandeiro moderno e a curandeira antiga.
Assim, podemos ler no conto
intitulado A Elisa do Augusto Rato:
«Acerca de setenta anos, morava na
rua da Igreja, em Ceira, uma mulher de nome Elisa, mais conhecida por Elisa do
Augusto Rato.
A casa onde morava era soturna e
fria, não só pela sua estrutura, como também pela aparição de uma figueira
brava, que nascera ao fundo das escadas, sombreando toda a fachada principal.
Dizia‑se que fora enterrado um tesouro no sopé das suas raízes, tendo a árvore
nascido para dar conhecimento aos ceirenses da veracidade daquele e da falta de
coragem da geração que, não tendo sido capaz de o desenterrar ao bater da meia‑noite, ouviu durante muitos anos ruídos estranhos dos espíritos
maquiavélicos que por ali rondavam.
Esta figueira era ponto
estratégico para as aves noturnas. Dela pendiam os morcegos que, na noite
escura, vagueavam dos seus galhos para os beirais dos telhados e destes
agarravam‑se aos xailes de carapinha das mulheres e à borla da
carapuça dos homens, quando por ali passavam, depois das trindades. A coruja e
o mocho também nela se acomodavam, causando o pânico na vizinhança, que dizia
tratar‑se de aves agourentas, prenúncio de chuva ou morte. Porém, no verão,
dava uns figos doces como mel, que só os melros e as crianças comiam. Os
adultos temiam o maligno do passado. Os seus ramos davam uma sombra
maravilhosa, a ponto de as mulheres, à hora da sesta, correrem ao despique para
encontrar lugar na escada, onde se sentavam de conluio, de cabeça no regaço
umas das outras a catar lêndeas e piolhos.
A tia Elisa era uma mulher
enérgica, cheia de expediente e coragem, tida como sendo, na época, a mulher de
maior préstimo em Ceira e arrabaldes; capaz de tratar das doenças do físico e
do espírito. Era ela quem ajudava as pessoas a virem ao mundo e lhes fechava os
olhos, amortalhando‑as e pondo‑as no esquife para a viagem final. Era escasso o dia que passasse sem
ser chamada para retirar um grão de cereal do nariz ou do ouvido a uma criança,
um anzol a um mancebo, um estadulho da sola do pé de um cavador, e outros
corpos estranhos, alojados em qualquer região do corpo humano.»
Para resumir, estes contos não são
mais do que memórias e ocorrências de Ceira, escritas em noites de luz e
inspiração, com a finalidade de dar a conhecer o passado a adultos e jovens. É
um livro dedicado à juventude ceirense de hoje, a todos quantos amam a sua
terra, os valores regionais, a etnografia e a história.

