sexta-feira, 21 de julho de 2017

O LAGARTO NEGRO


A mulher saiu de casa com um sorriso no rosto. Punha sempre o mesmo sorriso que a identificava como uma mulher feliz. Era o mesmo que via na cara das outras, embora soubesse que por dentro choravam. Queria estar sozinha e decidiu faltar ao emprego, sem dar satisfações a ninguém. No dia seguinte, encontraria uma desculpa para justificar a ausência. Afastou‑se da cidade e foi ver a praia. Conduzia a grande velocidade para se encontrar com o mar, ouvir os seus naturais suspiros, as ondas mornas que vinham beijar‑lhe os pés delicados, devolvendo‑lhe o sal das suas lágrimas secas.
Na praia, ao longe, as vagas pareciam‑lhe os cabelos brancos do pai. Que falta lhe fazia ele, com os seus abraços carinhosos, o seu bom coração, o seu respeito! Talvez ali, na presença do reflexo do pai, se esquecesse do sonho que a atormentava de noite. Era sempre o mesmo lagarto negro, quatro patas e corpo de carvão, que via de noite e a assustava. Também a perseguia durante o dia. Ela não percebia porquê, mas queria saber sempre tudo. Que significado teria aquele sonho? Manifestara‑se pelo menos três noites em quinze dias e ela acordava indisposta e angustiada, sem vontade de se levantar, ansiosa e aflita. No trabalho já andavam a comentar e depois chegaram a dizer‑lhe que estava mais magra, que não parecia ela. Um homem que a assediava, mas nunca levara nada dela, atirou‑lhe que estava um zero à esquerda. Uma amiga confessou‑lhe que estava um farrapo. Mas, enfim, eram as vinganças, as invejas, as competições, pensava. Depois de respirar profundamente entrou pelo mar dentro, como se desejasse fazer parte dele para sempre.
Mas saiu. Esteve deitada na areia com o corpo ao sol como um lagarto. Reencontrou o caminho para casa, embora demasiado cansada e sonolenta. Pela estrada fora, talvez a meio do caminho, aquele animal repelente, que via em sonhos, saltou‑lhe para cima da perna esquerda. Ela sentiu‑o deslizar até entrar no meio das suas coxas juntas e forçar aquele seu espaço íntimo. Era enorme, horrível e poderoso. A mulher gritou, aterrorizada, e o carro despistou‑se. Acordou no hospital. 
O médico entrou no quarto para visitá‑la e perguntou‑lhe o nome. 
– Não sei… – respondeu ela. 
No dia seguinte, o médico voltou trazendo uma imagem. Pediu ‑lhe que olhasse atentamente e lhe dissesse o que via. 
– Uma rosa… – disse ela. 
– Acertou. E a senhora chama‑se Rosa, tal como esta bela flor que aqui vê no postal. Há imensas nos jardins. Algo mais que recorde sobre si? Diga‑me tudo o que esta imagem lhe lembra. 
– Não me lembro de mais nada doutor.
Algum tempo depois, o médico voltou a entrar no quarto da paciente, trazendo um espelho e uma rosa do seu jardim. Pousou as duas coisas aos pés da cama. Pegou na rosa e ofereceu‑lha. A mulher cheirou‑a. 
Então ele perguntou‑lhe: 
– De que se lembra mais Rosa?
– Tenho uma vaga ideia de um jardim enorme, com roseiras, uma casa amarela muito grande, muito longe… – Essa é a sua casa e esse é o seu jardim. – disse o doutor, sorrindo, satisfeito com os progressos da doente. 
Depois deu‑lhe o espelho para as mãos e pediu‑lhe: 
– Agora veja o seu retrato. Veja‑se. Recorda ‑se de si? 
– Esta sou eu? Sou loura? Tenho olhos esverdeados? 
– Sim, é a Rosa. É das mulheres mais belas que conheci até hoje. Veja como é bonita. Olhe os seus lábios vermelhos e bem delineados. Os seus olhos claros. A sua pele mimosa. Os seus cabelos sedosos e fortes. É você. O que é que acha de si?
– Não sei… – respondeu – É apenas uma imagem. As mulheres devem ser todas iguais. Eu sou assim no espelho e pareço‑me bonita, mas como sou eu por dentro de mim? 
O médico sorriu e disse: 
– Já fez progressos. Todas as rosas são belas… Não quero que se canse mais hoje. A Rosa é a imagem que quiser ser, por dentro de si… Por favor, tente descansar. Saio daqui muito feliz consigo e comigo. Até amanhã. 
E no dia seguinte voltou. Rosa pediu‑lhe o espelho para se ver e tentar encontrar‑se mais consigo. Disse‑lhe que tinha cheirado a rosa de jardim várias vezes, que lhe aparecera no pensamento a casa amarela, um jardim verde, e duas crianças a brincar no verde. Então o médico foi abrir a porta e duas crianças, de repente, entraram e pularam para cima da cama. Instalaram‑se uma de cada lado da mulher e abraçaram‑na. Encheram‑na de beijos colados a ela. Ela reconheceu os seus cheiros, os seus beijos doces, os seus abraços carinhosos. Eram os filhos. Um rapaz de dez anos e uma menina de seis. 
– Meu Deus! – disse, entre sorrisos e lágrimas – Então não é que me lembro tão bem de vocês! Os meus filhos! Como poderia eu esquecer‑vos? Felizmente que vos guardei no coração! Jamais vos esqueceria, meu Deus! 
O médico disse que era altura de descansar e afastou‑se com as crianças. E, no dia seguinte, voltou ao quarto para conversar com a paciente. Ela disse‑lhe que tinha passado a noite a cheirar a rosa, a contemplá‑la e que, de súbito, se lembrara de um homem alto, elegante, bem vestido, coleccionador de automóveis. 
Então o doutor mandou entrar as duas crianças e o homem, que se aproximou com os filhos, e lhe foi afagar a mão esquerda. 
– Eu sou o teu marido. Lembras ‑te de mim? 
A mulher hesitou. Olhou‑o nos olhos e viu o lagarto negro pousado na sua perna, mas não se assustou muito. Depois disse:
– Lembro. Tu és o pai dos meus filhos. Marido… Marido não sei… Não nos divorciámos? 
O médico, satisfeito, pediu ao homem que se retirasse e deixou que a Rosa ficasse com as crianças mais tempo do que o costume. Foi uma tarde de afetos. Ao final do dia, Rosa confessou ao médico que, ao ver o homem charmoso, se lembrara do lagarto negro, bicho que lhe provocara o acidente. Aliás, era um sonho sinistro e recorrente, que a atormentara em dias precedentes ao acidente. O médico, então, perguntou‑lhe se ela se lembrava já da sua profissão. Rosa respondeu que talvez fosse bancária, mas não tinha a certeza. Também podia ser professora de matemática… Economista… Não sabia bem… Estava mesmo confusa. O céu escureceu e o médico pediu‑lhe que descansasse. Voltaria no dia seguinte pela manhã. E no dia seguinte voltou. Aquele médico parecia que nunca tinha pressa. 
Entrou no quarto depois do pequeno‑almoço. Olhou a doente e perguntou‑lhe:
– Rosa, qual é a sua profissão? – Penso que sou bancária… Tenho quase a certeza. Mas vejo lá o lagarto negro em cima da minha secretária… 
– Esqueça esse animal inofensivo. Ele não voltará mais a surgir na sua vida. A Rosa acertou. É mesmo bancária… A sua memória está praticamente recuperada. Ainda acha que é divorciada? Vai olhar muito bem para o seu marido. E mandou entrar o homem. As crianças já estavam na escola a aprender a ser e a estar. 
– Não, doutor, eu não sou divorciada. Esse homem é o meu marido e eu amo‑o. Nunca pensámos em divórcio, pois não Jorge? 
– Nunca, Rosa! – disse, sorridente – Doutor Horácio, a minha esposa pode ir hoje comigo para casa? 

– Sim, Jorge, a Rosa vai ter alta hoje, no entanto quero segui‑la de perto. A Rosa está a sofrer de exaustão. Grande parte dos portugueses estão já a sofrer do mesmo, infelizmente. Vamos tratar primeiro da saúde dela, antes que recomece a trabalhar.

Anabela França Pais, in CONTOS DE CEIRA AO LUAR

terça-feira, 18 de julho de 2017

SAUDADES DA LIBERDADE EM TEMPO DE DITADURA



Há vinte e alguns anos, quando eu e o meu marido começámos a dar aulas, com vinte e dois anos apenas, sempre achámos que tudo isto, a falta de valores, a indisciplina, a arrogância de alguns alunos, iriam refletir‑se mais tarde, claramente, na nossa sociedade. Aliás, ficávamos confusos, indignados e obstinados até nos deitarmos e adormecermos nos braços um do outro, porque nos parecia que não havia muito a fazer pelos que andavam distraídos da vida, uma vez que os pais não se afligiam muito. 
De facto, os professores preocupavam‑se, mais do que alguns pais, avós, encarregados de educação, mas a sociedade, no geral, parecia‑nos desatenta e indiferente ao que de facto importa: a formação cultural, cívica, ética, das gerações vindouras, a valorização do papel do professor e o respeito pelo ser humano, independentemente da idade: desde o mais novo ao mais idoso e entrevado. 
Eu e o meu marido apoiamo-nos mutuamente. É o que me vale. Ambos concordamos que, em certas turmas, se gastávamos demasiado tempo a manter a disciplina na aula, nada mudou até ao momento presente, continuamos a gastá‑lo, a consumir minutos a repreender alunos em vez de ensinarmos a matéria que preparámos. Quando conseguimos que estejam em sossego, a aula corre bem. Por vezes, parece que tudo corre lindamente, mas no meio do silêncio um aluno diz um palavrão, por exemplo, “que merda de aula…” E estraga‑nos tudo! E depois toca um telemóvel, ouve‑se uma gargalhada, faz‑se uma careta, um deles insurge‑se contra o colega do lado, levanta‑se, vai ter com ele e parte‑lhe o nariz, entre mil e uma ocorrências, interrupções, cenas de violência descontroladas, que parecem incontornáveis, mas não são, resta que alguém se preocupe seriamente com o futuro deste país.
Porque obviamente, não existem professores de olhos fechados, nem ouvidos tapados, ou que não tenham sentimentos. Na sala de aula, abrimos bem os olhos, aliás os nossos rostos e a nossas vozes ganham uma certa expressividade, com o voltear do tempo, que não engana quanto à profissão. Na sala de aula, o nosso corpo está alerta. Olhos e ouvidos, principalmente. Só estamos é de mãos atadas. E cada vez mais… Merecíamos alguma consideração. 
Como se fossemos um povo unido e consciente, sabemos que vamos pagar bem cara a falta de autoridade, de respeito e de valores que se vem manifestando nas escolas, em casa, na sociedade. Todos nós o sabemos, exceto aqueles que não querem saber, porque não querem saber de nada e só lhes interessa poder e dinheiro. Esses habituaram‑se ou acomodaram‑se e, se bem calha, ainda chamam inadaptados aos outros. Preferem o silêncio da indiferença ou a demagogia do poder. A autoridade, essa autoridade que roubaram aos professores, o respeito e até a dignidade que nos arrancaram, nunca mais nos foram devolvidos. Mas a culpa não foi nossa! Nós temos a certeza de que fizemos o melhor, o que estava ao nosso alcance, agora que as coisas pioraram tanto. E é por isso que realmente tenho saudades do passado… Eu mais do que o meu marido. O certo é que antigamente, quando começámos a trabalhar, tudo tinha força, vigor, entusiasmo, boa‑disposição! Organizávamos boleias, viajávamos de madrugada, e já saíamos felizes de casa, nem que fossem seis horas da manhã. Mas tínhamos vinte anos, e não quarenta e muitos, o que faz toda a diferença, porque envelhecemos e já não existem reduções nos horários. Tenho saudades daquele tempo em que atas de Conselhos de Turma eram escritas à mão e não existiam máquinas: nem telemóveis nem computadores. Ele, que já não faz nada sem o computador, acha que eu exagero. 
O certo é que eu era mais nova, e a vida mais leve. Havia sempre alguém que preparava e levava um lanchinho, uns chocolates pelo Natal e pela Páscoa, uns sumos requintados ali da zona da Anadia, um pão com chouriço, uns bolos caseiros... Recordações muito boas dos colegas de Águeda e de outras escolas também... Mas não me esqueço que, sendo eu a mais nova, era também Diretora de Turma, e bastante perfecionista. Os colegas, mais velhos e sábios, é que não iam na cantiga. Enfim, ninguém os derrotava, muito menos eu, que chegava de novo e era uma lufada de ar fresco! 
O problema eram as atas e quem as fazia. Era mesmo um grande sarilho! Vê lá quem é o secretário, senão tenho de fazer eu a ata! Ninguém as queria fazer! Os secretários começaram a ser indigitados pelo órgão de gestão, graças a Deus. Uma vez calhou‑me o meu marido como secretário. Eu pensei que estava arrumada, porque não conhecia o Zé Carlos como colega, mas logo me pareceu um baldas, só pela maneira como se vestia e por ser tão novo. Afinal saiu‑me o melhor secretário do mundo. Como o aspeto exterior nos engana tanto! Mas o melhor era quando nos enganávamos nas atas e escrevíamos “digo”, depois uma vírgula, e continuávamos a redigir o texto. “A colega não se importa de fazer outra ata?” Eu era a Diretora de Turma, mas os meus colegas, todos mais velhos, unidos e determinados, recusavam-se a passar a ata de novo e eu lá me conformava com o “digo”.
Éramos tão felizes nessa altura... De manhã, as árvores eram verdes ou vermelhas e estavam vivas, acesas e intensas, cheias de frescura e velocidade quando passávamos por elas, mostrando grande beleza. À noite, no regresso a casa, pouco tinham mudado. No dia seguinte novamente a viagem para a escola longínqua. À sexta‑feira, sentia‑se algum cansaço, mas pouco. Ainda dava para tomar um copo com os amigos à noite. O fim de semana chegava para tudo, sem computadores não havia que dar respostas, corrigiam‑se as fichas, faziam‑se materiais, e ainda se limpava e arrumava a casa… Agora quem manda é a máquina. Estamos dependentes do computador e por isso temo‑lo sempre ligado, à espera dos e‑mails da escola...

Anabela França Pais, "Saudades da liberdade em tempos de ditadura", in Contos de Ceira ao Luar. 


quarta-feira, 28 de junho de 2017

APRESENTAÇÃO DA OBRA:
CONTOS DE CEIRA AO LUAR
CEIRARTE/2017
A obra Contos de Ceira ao Luar é uma coletânea de dezoito contos, escrita por duas autoras, que percorre uma longa trajetória no tempo, dando-nos a conhecer a vida quotidiana e a condição humana nos séculos XIX, XX e princípios do XXI. 
Costumes de Ceira, festas de cariz religioso e pagão, tradições, histórias "do arco da velha", lugares distantes, estranhos e lúgubres, personagens castiças, existentes em Ceira e em Coimbra, reaparecem-nos engrandecidas, como se pedissem para as recordarmos hoje, no espaço da ficção, da memória, da fantasia e do sonho.  
Este espaço e este tempo antigo, envolvente, rural, duro e pobre, mas talvez mais alegre e saudável do que o atual, entrecruza-se com a atualidade em que vivemos, colocando novas lentes, mas analisando e repetindo os mesmos temas da esperança, da fantasia, do onírico, do absurdo, da vida e do amor, da velhice, do tempo, da doença e da morte. 
O livro abre com o conto intitulado “Estação Coimbra B”. E aqui começa a viagem no tempo e no espaço aberto à fantasia e à memória. Nesta história, um viajante chega à cidade e, antes de descobrir a mulher da sua vida, começa por recordar a infância, passada em Ceira, na companhia dos primos, tios e tias de muita idade e dos avós. As suas tias, que eram lavadeiras, fazem parte do elenco de personagens aqui evocadas, que desfilam à medida que as narradoras recordam costumes e tradições antigas, tão inesquecíveis como a roupa lavada no rio Ceira e transportada para Coimbra na barca serrana de Joaquim Rodrigues, conhecido pelo “barqueiro divertido”, ou então nos carros de bois, meios de transporte utilizados na época com esta finalidade.
Assim, podemos ler, nas páginas 22 e 23, a descrição do narrador masculino sobre a sua infância:
«Participávamos nas vindimas, a comer e a pisar uvas, dentro de um grande tanque, na adega do avô Manel e do tio Toninho, descamisávamos e escarolávamos as espigas de milho na eira, ajudando a avó Palmira e as tias velhas, que estavam quase sempre a cantarolar, com uma voz fina e chata, implicando connosco e nós com elas.
Depois do almoço dormíamos a sesta, porque se não dormíssemos eram chamados o homem do saco ou o farrapeiro, para nos levarem com eles, tão assustadores, deviam ser velhos, não sabíamos bem para onde iríamos, palavras que nos eram ditas também quando nós nos portávamos mal.
Alguns anos depois, as diversões mudaram de sítio. Faziamse matinés na discoteca o Lagar, na Boiça, nas festas de garagens, só para alguns amigos, dançávamos rock e slow e curtíamos o momento, sem preocupações, ao som da música dos anos oitenta e noventa, na minha opinião, a melhor de sempre…
Sobre as lavadeiras, recordome de ouvir a minha avó contar que entregavam a roupa lavada, às freguesas, todas as segundasfeiras, regressando a casa com as peças sujas, após as senhoras de Coimbra darem a roupa ao rol, assegurandose que nada desapareceria. Se faltassem peças, as lavadeiras tinham de indemnizar as freguesas, que eram intolerantes.
As pobres mulheres escolhiam uma pedra, nas margens do rio Ceira, regra geral nos finais do inverno, depois das grandes enchentes, que arrastavam consigo pedras de géneros e tamanhos variados, daí poderem selecionálas à vontade e gosto de cada uma, tornandose a partir desse momento propriedade exclusivamente sua. Ficavam identificadas as pedras da ti Rita, da ti Angelina, da ti Lurdes, e de outras lavadeiras do rio Ceira.»
No conto seguinte, "O Poeta Oculto", as autoras apresentam-nos uma figura conhecida como Manuel Simões “Lata”, o poeta popular de Ceira que escrevia, tanto prosa como verso, para o jornal Diário de Coimbra. O conto é narrado pela sua bisneta, a narradora textual que relembra ao leitor a forma como o poeta vivia, a sua profissão de alfaiate e membro da Junta de Freguesia de Ceira, a educação esmerada que dava aos seus oito filhos, como em sua casa de alfaiate eram convidados para banquetes, jantares e tertúlias os padres, com quem o poeta gostava de discutir assuntos de religião e política, entre muitas outras figuras residentes na aldeia, como o senhor juiz e o regedor. 
Deste modo, podemos ler, nas páginas 43 e 44, o relato fidedigno da narradora textual, que relembra situações vividas em casa do seu bisavô, Manuel Simões Lata:
«Discutiase religião, política e coisas do arco da velha. O padre Antunes e o seu vizinho, o padre Ismael de Almeida Chuvas, o professor Melo, o juiz, e outras personalidades da vida social da região, reuniamse para conversas importantes ou banais, acompanhadas do vinho que pinchava nos copos. Teresa não se cansava de o oferecer, deixando os copos cheios, por vezes a espirrar sobre a toalha, devido aos gracejos dos padres, calaceiros por mulheres, não tiravam os olhos dela.
À medida que bebiam, desvendavam segredos de confessionário. Os doutores das quintas ficavam a saber quem roubava feijões, milho, e outros haveres, quem comia a broa do senhor doutor Virgílio, os homens ficavam a saber quem eram as mulheres desonestas. Os padres ou abades comentavam quem tinha o nome em branco no livro da desobriga. Quanto à política, quem fazia parte da lista branca, quem eram os tratantes da negra, os maiores bêbedos, os piores ladrões, os homens que maltratavam mulheres e corriam os filhos à calhoada, em que lugar da paroquia havia mais fome e carência de bens materiais, quais eram as crianças desobedientes e difíceis de educar, se nos últimos anos havia aumentado o número de deficientes. Nestes casos, o padre e o presidente da Junta atuavam, fazendo com que os filhos lhes fossem retirados e colocados no Ninho ou na Tutoria, onde aprenderiam uma profissão, saindo depois de atingirem a maioridade.
O padre comunicava ao bispo estas e outras ocorrências, tendo ainda de informar por escrito o número de nascimentos e batismos, os nados mortos, óbitos, casamentos católicos, mancebias. Cabia ao padre, pastor da igreja, zelar pelas suas ovelhas. Era quem atestava o bom ou mau comportamento, cívico e moral, dos paroquianos.
Priores, curas ou abades da época deviam mostrar capacidades para liderar o melhor possível a paróquia, tendo obrigação de tentar corrigir ou minorar quezílias entre famílias e vizinhos.»
Noutro conto desta obra, intitulado “Alma de Pássaro”, somos transportados de novo para os nossos dias, evidenciando problemas que nos anos 20 e 40 não existiam, tal como o drama das smartshops e das drogas psicotrópicas, fabricadas em laboratórios, vendidas nas ruas e pela Internet. 
Nesta coletânea, oscilam, portanto, os problemas do nosso quotidiano agitado do século XXI, em contraste com a lentidão e a pacatez da existência, nos finais do século XIX e primeira metade do século XX.
Sucedem-se, uns atrás de outros, em alternância, episódios cómicos, trágicos e misteriosos, como as noites de um barqueiro embriagado na taberna de António Antunes, no largo do Santo Cristo; o jornalista preocupado com a violência do mundo atual; os serões de antigamente; a bailarina a quem oferecem um chá e fica alucinada; a casa queimada do Padre Antunes e os segredos que ela escondia na terra; a estalagem da Catraia e as festas que os arraianos faziam, quando aí chegavam, com os seus cavalos e mercadorias, trazendo de Espanha, para vender às senhoras, a peça da perdição, que foi proibida pela Igreja durante alguns anos; a casa do Ramal onde nós encontramos atualmente o café Katekero; a Casa da Lameira e o sonho da bondosa D. Virgínia; o estudante de Coimbra, recordado no conto “Silêncio Perpétuo”; o professor de hoje e o professor antigo, que ralhava e batia, dava com a cana nas orelhas das alunas até lhes deixar tortumelos; a mulher aflita que procura a curandeira para tentar abortar, porque já não quer mais filhos; as diferenças entre o curandeiro moderno e a curandeira antiga.
Assim, podemos ler no conto intitulado A Elisa do Augusto Rato:
«Acerca de setenta anos, morava na rua da Igreja, em Ceira, uma mulher de nome Elisa, mais conhecida por Elisa do Augusto Rato.
A casa onde morava era soturna e fria, não só pela sua estrutura, como também pela aparição de uma figueira brava, que nascera ao fundo das escadas, sombreando toda a fachada principal. Diziase que fora enterrado um tesouro no sopé das suas raízes, tendo a árvore nascido para dar conhecimento aos ceirenses da veracidade daquele e da falta de coragem da geração que, não tendo sido capaz de o desenterrar ao bater da meianoite, ouviu durante muitos anos ruídos estranhos dos espíritos maquiavélicos que por ali rondavam.
Esta figueira era ponto estratégico para as aves noturnas. Dela pendiam os morcegos que, na noite escura, vagueavam dos seus galhos para os beirais dos telhados e destes agarravamse aos xailes de carapinha das mulheres e à borla da carapuça dos homens, quando por ali passavam, depois das trindades. A coruja e o mocho também nela se acomodavam, causando o pânico na vizinhança, que dizia tratarse de aves agourentas, prenúncio de chuva ou morte. Porém, no verão, dava uns figos doces como mel, que só os melros e as crianças comiam. Os adultos temiam o maligno do passado. Os seus ramos davam uma sombra maravilhosa, a ponto de as mulheres, à hora da sesta, correrem ao despique para encontrar lugar na escada, onde se sentavam de conluio, de cabeça no regaço umas das outras a catar lêndeas e piolhos.
A tia Elisa era uma mulher enérgica, cheia de expediente e coragem, tida como sendo, na época, a mulher de maior préstimo em Ceira e arrabaldes; capaz de tratar das doenças do físico e do espírito. Era ela quem ajudava as pessoas a virem ao mundo e lhes fechava os olhos, amortalhandoas e pondoas no esquife para a viagem final. Era escasso o dia que passasse sem ser chamada para retirar um grão de cereal do nariz ou do ouvido a uma criança, um anzol a um mancebo, um estadulho da sola do pé de um cavador, e outros corpos estranhos, alojados em qualquer região do corpo humano.»
Para resumir, estes contos não são mais do que memórias e ocorrências de Ceira, escritas em noites de luz e inspiração, com a finalidade de dar a conhecer o passado a adultos e jovens. É um livro dedicado à juventude ceirense de hoje, a todos quantos amam a sua terra, os valores regionais, a etnografia e a história.